segunda-feira, 26 de outubro de 2009

...um conto








Onde estão os contos digitais?












O cãnion ao lado do
Rio São Francisco


Aquele cânion ao lado do Rio São Francisco, profundo, com sua garganta verde e trilhas que cortavam arbustos e pequenas árvores retorcidas, era, de tão belo, O lugar perfeito para morrer ! Concluíra, Erosmar Bezerra. O portal daquele espetáculo campestre na Serra da Canastra também fora descoberto por turistas, desapontado, Erosmar vira chegar com eles os esportes radicais. O vilarejo perto dali não mais se resumira em albergues com lampiões, todavia, proliferavam-se lojinhas e hospedarias à luz elétrica. Como ocorre com os animais, condicionados por seus instintos, Erosmar sentira que seu pasto fora invadido; o isolamento completo é insuportável, mas, socializar o turismo num cotidiano selvagem, que por si só, jamais deveria mudar — coisa que felizmente nós humanos ainda não aprendemos —, considerava ele aquela invasão uma heresia. Alvorecera, sentira os primeiros raios de sol feito um carioca soberbo. As lufadas de ar que penetravam em suas narinas provocavam-lhe uma sensação renovadora, caminhava por um trâmite que poderia durar de uma a duas horas, sobretudo quando sobressaia-lhe a disposição, dando-lhe oportunidade de refletir sobre sua própria vida, como fazia agora, Meu público não sabe quem sou eu na vida real ! Nem porque subitamente os abandonara, Eros fugiu para onde ? Assim o chamavam e, o chamarei assim daqui em diante, indagavam, indagavam, mas ninguém sabia por andava o letrado e exímio clarinetista. Três anos atrás, no palco, ele se virara para seus companheiros músicos e dissera, Chega! Não aquento mais, fiquem com o dinheiro do show. Boa sorte! Supondo que a causa do abandono de Eros fora o egoísmo de sua vaidade inconscienciosa, seus amigos adotaram a recíproca. Eros obedecera a si mesmo, ignorara o amor de Leopodina, sua única filha, malgrado tinha a convicção de ser uma desvalia no mundo da arte, no entanto, algumas pessoas dependiam dele para manter suas famílias e, praguejavam contra ele, pode-se predizer que Eros se conduzira corajosamente para um mundo que não conhecia, e que se en-contrara nas paisagens magnificas que decoraram seu incógnito vazio, não se importava mais se no futuro conhecesse alguém que jamais lera um livro ou que não gostasse de alguma canção de Cartola, redimiu-se. A fuga de Eros fora motivada pela sua intelectualidade esnobe, uma vez recusara-se a tocar em uma das melhores casas de show de São Paulo apenas porque soubera que o proprietário, um estrangeiro, jamais lera um poema de Drummond, Não compartilho com o capitalismo que ignora minha arte! Respondera aos amigos, deixando-os estupefatos. Eros enchera-se de ânimo, não acreditava estar mais na cripta de sua ufania, ali naquele lugar selvagem agora não tão deserto, a sensibilidade para aceitar as pessoas como elas são, despertara feito um bebê nele , A capacidade do homem para usar suas forças e realizar as potencialidades nele inerente é infinita! Reconhecera. Vergado sob o peso da culpa — acreditava que cometera um crime com sua arrogância erudita— , entre o que ele poderia realizar e o que de fato realizara, os seus 55 anos grisalhos pesaram antes mesmo dele atingir sua meta de liberdade, O verdadeiro artista, aquele que produz, é o mais convincente representante da produtividade! Inferiu. E talvez por isto, apenas por isto, decidira voltar. Era meio dia quando chegou a casa do amigo boliviano. Este fazia desta, bar e loja de ferramentas agrícolas, ¡Buenas tardes, Ramirez! ¡Buenas tardes, don Bezerra!¿Qué tal estáis por ahí? ¡Bien! ¡Una Cerveja! Sentou num tronco cortado pela metade que, paralelo ao balcão, formava um longo banco. Olhou para os barracos pintados lá fora — aparentavam-lhe uma aquarela desbotada e confusa —, cada qual na sua cor, numa análoga tradição com o xadrez escocês e, sorriu sem nenhum custo. Abriu os braços ao ouvir um teco-teco sobrevoar os barracos, a pista de pouso ficava a um quilometro dali, ¡Olé, don Bezerra, su filha está no céu hombre! Bradou Ramirez. Eros gostava de estar ali, de falar português e esp-anhol com o amigo boliviano que num tempo breve tornara seu único confidente. Estava excitado, iria rever a irreverente Leopodina, e contar-lhe que decidira voltar à São Paulo. Pertubava-se por ter-se apego às ideias e teorias que o afastaram dos seus. O passado veio-lhe num filme branco e preto, na história do Brasil, encantara-se com a célebre paixão de Leopodina; a arquiduquesa veio da Itália para o Rio de Janeiro se encontrar pela primeira vez com Pedro I a bordo da Galeota Real. A imperatriz o amava tanto que quase enlouqueceu, foi neste amor imperial que inspirara-se para dar o nome à filha. A esposa morrera no parto. Refletia, todavia, um grito o despertara, era de uma senhora gorda que parecia conhecê-lo, chamando-o do lado de fora. Ramirez estranhou o sumiço do amigo, foi até a porta, gritou por ele, em vão. Eros fora encurralado num barraco por dois pistoleiros, Onde está o dinheiro, velho? Uma coronhada que o acertou em cheio nas costas o fez dobrar os joelhos, Desembucha! Tá a fim de morrer! O reergueram. Eros viu-se espantado, com certeza o confundiram com algum turista gringo endinheirado, argumentou não ser ele quem procuravam, mas a tenacidade deles o fez reagir. O pistoleiro se surpreendeu ao ser agarrado, Eros sentiu uma bala entrar em seu quadril esquerdo, varar seu intestino e se alojar no bolso de sua calça. Caiu e recebeu outro tiro, na nuca. Zonzo e sem fôlego, ouviu de longe o momento em que Ramirez gritou por ele. Expirou, numa poça de sangue, ¡No puedo creer! Lamentara Ramirez, com os olhos vermelhos. O passamento de Eros fora um acontecimento social, sobretudo por que não houve um ritual eclesiástico, uma minoria de escandalizados repudiaram sua incineração — pacto entre pai e filha —, os costumes fúnebres de hoje estão longe daquele passado sombrio, em que a igreja durante um tempo, exerceu seu poder e controle sobre pensamentos e ações nas sociedades, enterrando inclusive em seus tempos idos, seus mortos em seus solos, paredes, debaixo de seus altares e por detrás dos oratórios, mas, se recheio de igreja outrora fora defunto, hoje, faz-se recheio de gente viva mesmo. Longe dessa truculência, numa simbiose entre o sagrado e profano, os escandalizados bradavam contra inumação simbólica sem conhecimento de causa. O ápice do cortejo fora os vivos reunidos solidariamente ao pé do cânion para cumprir o último desejo de Eros. Leopodina chorou recitando os poemas preferidos do pai — todos de Drummond —, abrindo suas recordações diante de um velório singular. Viram nela uma delicadeza feminina extraordinária, coexistente com uma firmeza de aço que resistia ao sofrimento, mas não as lágrimas, ¡Creo que fuera como ele había deseado! Comentara Ramirez, vendo as cinzas de Eros esvaírem-se no cãnion. Olhavam-se, numa acepção emocional deveras profunda. Equivocada, Leopodina voltou à São Paulo ensimesmada, mas, decidida,
Meu pai não morreu em vão!O motorista do caminhão pipa não compreendia por que aquela mulher com curvas atraentes, tão jovem e bonita, viajava à um lugar distante para buscar água de um rio somente para encher uma piscina, Se você não se importa, eu conheço algumas distribuidoras de água em nossa cidade…! Mas que droga! Eu me importo! Ele não ousou mais abrir a boca sobre este assunto. Leopodina mandara construir uma piscina de concreto de 35 mil litros e, com o tempo, despertara a curiosidade das pessoas; o muro alto e o portão automático não impedira que crianças e vizinhos agregassem à calçada com olhares pidonhos e uma transparente condição submissa. Leopodina concretizara sua vontade, Se meu pai era um turrão e tinha lá suas ideologias, eu também tenho as minhas! Com efeito, por acreditar que devia fidelidade ao pai, equivocava-se em suas considerações decidindo não compartilhar as águas do velho Chico. Perambulava pelo quintal durante a madrugada, rodeava a piscina, atentava para qualquer tipo de som e dormia com sobressaltos. Malgrado ouviu o motorista comentar que o zunzunzum do povo era sobre um tesouro em sua piscina. Não titubeou, instalou alarmes, câmeras, e os monitorava até que o sono lhe passasse a perna. A sensação de impotência e melancolia provocava-lhe um calor terrível, de maneira que suas axilas escorriam como bicas e sua pele transpirava encharcando suas roupas, neste momento não se importava com o que vestia ou se era madrugada, corria para a piscina e nadava, nadava a ponto de cair exausta. Sua casa se transformara numa atração turística, ¡Dios mío! ¿Qué es esto? Bradou Ramirez surpreso quando à viu no noticiário da TV; o belo rosto de Leopodina parecia estar fora de foco, via-se entre as grades imensas do portão, sua figura descabelada caminhando de um lado à outro, fugindo das câmeras com uma visível ira. O boliviano avançou para o telefone ¿Dona Leopodina, cómo están…te encuentras bien? Não se preocupe comigo Ramirez! È a piscina, eles nunca viram um abastecimento assim ! ¿È una coisa estranha para todos nosotros? Eu sei, já parei com isto! Mas eles querem entrar, bisbilhotar… ¿Será mejor que esvazie la piscina? Não! È o mesmo que mijar numa cova! O tom chulo o fez pensar que a obsessão dela beirava a irracionalidade, ¡Dona Leopodina es una muchacha muy dulce, la pobrecita debe de está completamente perdida! Não se falaram nunca mais. Leopodina vivia numa casa de doze cômodos, sem cachorro, gato, vivia só, o silêncio era de uma rodovia escura e vazia. Gostava muito de si mesma e de sua obra póstuma ― contemplava a piscina, amiúde ―, que, acreditava ter dado um sentido em sua vida, no entanto, a consequência de sua realização resultara sobretudo em proporções que fugiam ao seu controle. Numa noite, debruçada à janela, desolou-se em palpites e perplexidade, depois, de exceder-se nas doses de Campari, O Rio São Francisco está em minha casa, quiçá um barco não atravessa meu quintal? Cambaleando, recolheu-se tardiamente à cama com o teto em definições giratórias de 3-D. Leopodina atentava para os gritos de seu pai na cozinha e dizia à si própria, O que ele quer? Que eu faça parte de sua melomania? O rosto circunspecto dele à sua frente, a voz grave, Sol, lá, si…ela afastou o travesseiro como se ele fosse seu pai, A música e a cultura filha, ouvia, estão de mãos dadas, a primeira trará constância ao seu coração, a segunda lhe trará consciência! E insistia para que cantassem juntos,
♫ Bate outra vez ♫♪ com esperança o meu coração… ♪♫
Ela se debatia, afastando mais e mais o travesseiro. Não tinha dom para música, esta deficiência colidia com a expressão clássica do pai, Não compartilhe com o capitalismo que ignora sua arte! Ela acreditava que se o agradasse estaria traindo a si mesma. Concordava com o pai num ponto, O homem devia ser um fim de si mesmo e não apenas um meio! Se ele a honrara com sua musica ela o honrara com as águas de São Francisco. Este raciocínio confortou-a e, pensou em dizer a ele se gostara do que fizera, e por que deixava as pessoas plantadas no portão impedindo-as de entrarrem, todavia o pai não parava de gritar na cozinha, Estou molhado até os ossos! Estou molhado até os ossos! Ela não deixou-se aterrorizar, mas seu psiquismo a confundira, agitava os lençóis pensando estar na piscina e, estranhara; sempre que mergulhava até o fundo, emergia ofegante à superfície tocava o parapeito e sentava-se na borda, dessa vez não encontrou a borda, a água da piscina nivelara-se ao chão, então tocou na terra, inspecionou o quintal e depois o céu, ah! o céu, suas nuvens azuis e brancas não demonstravam nenhum sinal de chuva, era um céu tropical, desses que não nos faz temer raios e inundações, porém, a piscina desaparecera no terreno alagado, extravasou, inundou a casa; boiavam-se moveis, roupas e tudo quanto é bugiganga, o dia amanhecera lindo, ensolarado, sobre as águas, sua cama deslizava como uma canoa desvairada no quintal. Crianças acenavam do portão, os jornalistas procuravam o melhor angulo para fotografá-la. Num gesto súbito e surpreendente, apanhou a pá de lixo e remou até o portão, escancarando-o. Invadiram; garimpeiros, aventureiros, turistas e toda espécie de curiosos. Sobre a cama, ainda de camisola, Leopodina seguiu remando rio afora… feliz.

Fim

quinta-feira, 4 de junho de 2009

Chumbinho


Dolôres era uma mulher sem moral e sem peito para dizer que jamais procuraria por Zé Canhoto, que desacreditava nas suas promessas de não ir dormir em sua casa ― morava numa viela malcheirosa e mal-iluminada ―, perto do boteco que ele vivia com os amigos de copo e viola de doze cordas, afinada nas tardes e noitinhas numa vida sem prosa, tagarelando no balcão e na mesa dela, fartando-se com sua dobradinha caprichada para fazer as pazes. De tão magro e alto, parecia um poste abraçando-a com suas mãos enormes, as quais usava para bulir com as menininhas que pediam modinhas ou balinhas de canela dum pote de doces sobre a geladeira lotada de cerveja que, os vizinhos tomavam fiado e demoravam à pagar ao dono, este, condenado a dividir com a esposa ― de incontinentes tufões ― o boteco e uma cama fria que de quente só tinha a pinga e a chama da vela vermelha de sete dias. Os olhos do dono mesmo fechados, viam de maneira gulosa o que a boca chegava a salivar amiúde por pensar na amante; fogosa, de carne macia e quente, a qual se lambuzava no contíguo do fundo que alugara à ela. Ouvira dela uma história triste; veio do norte sem eira e nem beira tentar a sorte em São Paulo. Fez de tudo um pouco e, sabia recompensar à quem lhe estendia o prato…o dono não pensou duas vezes, deu moradia em troca de afazeres domésticos e uns afagos na bichinha. Pelo olhos dele, a dona dos tufões sequer desconfiava da amante. No boteco, deram por falta várias vezes dos dois nas noites de viola de doze cordas, que Zé Canhoto se esbanjava tocando com suas unhas imundas, as cordas e o copo de cachaça Dolôres bebericava e dividia com ele às fartadelas de pão francês, o molho do picadinho do almoço ― feito especialmente para o Zé ―, que neste dia fora chorar seus impostos atrasados que a prefeitura por pouco não a tomou e o jogou no olho da rua, acrescido de imensa vexação perante os amigos que apresentaram-lhe um sujeito bem de vida.O tal sujeito à comprou por vinte mil reais e um chevette alienado que, Zé Canhoto dirigia à soberba com os amigos do boteco nas noites de sexta-feira. Dolôres se exaurava no restaurante como cozinheira, e morria de dor de cabeça de tanto ouvir os falatórios das colegas; que Zé Canhoto não prestava, que já havia dormido até com sua afilhada Marieta de doze anos. Dolôres que muitas vezes por estar bêbada, não tinha consciência das safadagens do Zé… as lágrimas escorriam sobre a face que o tempo não impiedou com rugas, e nas mãos que as lâminas temiam em talhar. Uma idéia de vingança aflorava-lhe o tempo todo, cismarenta que era, pensava em dar cabo de seu amasiado. Convidada à saborear um guisado feito pela esposa de incontinente tufões, carregou Zé Canhoto consigo, que se sentou ao lado da amante do dono do boteco e devorou a iguaria com chumbinho ― morreu agônico no hospital ― e cachaça. Seu óbito trouxe silêncio para viela mal-cheirosa e mal-iluminada. E, perguntavam, A comilança fora vingança de Dolôres ou descuido da dona de incontinentes tufões? Que quando bebia, jurava Zé Canhoto de morte por conta da afilhada Marieta, e a outra no boteco, da-va por falta do marido.
Fim

Utinga Pereira

segunda-feira, 1 de junho de 2009

Lyha




Lyha,
sometimes the best part of the beach is when to be on moutains of stone and can see the sea
You is a dream, notwithstanding the sea is reality, the moon is reality
but your voice
is my imagination what hear
so... around
I feel solitude to make good for me
the shark lives on fish
Lyha,
I lives on rembrance...and
befor my face
the sea.


Utinga Pereira