Dolôres era uma mulher sem moral e sem peito para dizer que jamais procuraria por Zé Canhoto, que desacreditava nas suas promessas de não ir dormir em sua casa ― morava numa viela malcheirosa e mal-iluminada ―, perto do boteco que ele vivia com os amigos de copo e viola de doze cordas, afinada nas tardes e noitinhas numa vida sem prosa, tagarelando no balcão e na mesa dela, fartando-se com sua dobradinha caprichada para fazer as pazes. De tão magro e alto, parecia um poste abraçando-a com suas mãos enormes, as quais usava para bulir com as menininhas que pediam modinhas ou balinhas de canela dum pote de doces sobre a geladeira lotada de cerveja que, os vizinhos tomavam fiado e demoravam à pagar ao dono, este, condenado a dividir com a esposa ― de incontinentes tufões ― o boteco e uma cama fria que de quente só tinha a pinga e a chama da vela vermelha de sete dias. Os olhos do dono mesmo fechados, viam de maneira gulosa o que a boca chegava a salivar amiúde por pensar na amante; fogosa, de carne macia e quente, a qual se lambuzava no contíguo do fundo que alugara à ela. Ouvira dela uma história triste; veio do norte sem eira e nem beira tentar a sorte em São Paulo. Fez de tudo um pouco e, sabia recompensar à quem lhe estendia o prato…o dono não pensou duas vezes, deu moradia em troca de afazeres domésticos e uns afagos na bichinha. Pelo olhos dele, a dona dos tufões sequer desconfiava da amante. No boteco, deram por falta várias vezes dos dois nas noites de viola de doze cordas, que Zé Canhoto se esbanjava tocando com suas unhas imundas, as cordas e o copo de cachaça Dolôres bebericava e dividia com ele às fartadelas de pão francês, o molho do picadinho do almoço ― feito especialmente para o Zé ―, que neste dia fora chorar seus impostos atrasados que a prefeitura por pouco não a tomou e o jogou no olho da rua, acrescido de imensa vexação perante os amigos que apresentaram-lhe um sujeito bem de vida.O tal sujeito à comprou por vinte mil reais e um chevette alienado que, Zé Canhoto dirigia à soberba com os amigos do boteco nas noites de sexta-feira. Dolôres se exaurava no restaurante como cozinheira, e morria de dor de cabeça de tanto ouvir os falatórios das colegas; que Zé Canhoto não prestava, que já havia dormido até com sua afilhada Marieta de doze anos. Dolôres que muitas vezes por estar bêbada, não tinha consciência das safadagens do Zé… as lágrimas escorriam sobre a face que o tempo não impiedou com rugas, e nas mãos que as lâminas temiam em talhar. Uma idéia de vingança aflorava-lhe o tempo todo, cismarenta que era, pensava em dar cabo de seu amasiado. Convidada à saborear um guisado feito pela esposa de incontinente tufões, carregou Zé Canhoto consigo, que se sentou ao lado da amante do dono do boteco e devorou a iguaria com chumbinho ― morreu agônico no hospital ― e cachaça. Seu óbito trouxe silêncio para viela mal-cheirosa e mal-iluminada. E, perguntavam, A comilança fora vingança de Dolôres ou descuido da dona de incontinentes tufões? Que quando bebia, jurava Zé Canhoto de morte por conta da afilhada Marieta, e a outra no boteco, da-va por falta do marido.
Fim
Utinga Pereira