Haiti
Porto Príncipe –1973
As rajadas de fuzis e cantadas de pneus foram
súbitas e próximas, Jacob comprimiu-se
com o susto. Agachado às escuras, viu uma perseguição policial haitiana passar
à frente, com o impacto da surpresa não tivera tempo de engolir uma orelha negra presa entre seus dentes, sua boca
ficara tão suja de sangue que um lenço masculino se encharcaria. Normalmente
não agia assim, mas admitiu; a causa fora a perplexidade. Achou prudente fugir
imediatamente. Desembestou na escuridão pelas vielas da favela
de Cité Soleil, iria ter com Tossaint. O general Tiburcio Pascoal,
comandante militar da missão de Paz das Nações Unidas, deu uma gargalhada
vigorosa que ecoara por todo o corredor da pequena sala de sauna, Estou lhe
dizendo, comentou animado, o desgraçado me fez comer um prato com o nome de
rabo de tanajura com peixe assado! os oficiais sacudiram-se de rir, Agora tu
imagina uma coisa, mais de uma hora de simulação de conflito, com soldados
sendo atingidos por pedras e paus, tu ali com uma fome do caralho, e quando vai
embora, teu carro fura o pneu em frente à um restaurante, tu entra e, aparece um sujeitinho de cabeça enorme te oferecendo peixe com bunda de
formiga? Ah! Tenha dó! E foi ai que ele te pegou, concluiu o capitão Aguiar,
com deboche disfarçado. Houve mais gargalhadas, Pois é, continuou o general
Pascoal, erguendo-se e recompondo a toalha na cintura, Ele não pegou só a mim
como todos vocês, ou querem de volta aquela caca que está nos contêineres?
juntos, os oficiais discordaram com o dedo indicador. O primeiro contingente do
Exército brasileiro no Haiti fora instalado a um quilometro de Pentionville ―
único bairro rico do país ―, embaixadas, restaurantes com culinárias europeias,
à sombra de uma base da ONU. O poder, seja
ele de qualquer espécie, possui
um comportamento motivado pela
ambição, de modo que para satisfazer sua ânsia, pode inclusive
matricular suas lindas crianças loiras e ingênuas no centro de Pentionville; protegidas pelo simpático e
incógnito Exército Brasileiro. Depois de seis meses no Haiti
Jacob não conseguia exterminar sua melancolia. Não havia no mundo um ser humano
que pudesse compreendê-lo; ele mesmo não saberia se explicar. Quando general
Pascoal o conheceu em Santa Catarina, se
encantou com sua culinária. Cogitava levar um soldado
cozinheiro do Brasil, Jacob fora um prato cheio à suas intenções, não se
importou com sua cabeça desproporcional
ao corpo, afinal, seus vistosos olhos azuis compensavam sua anatomia
desfigurada. Ao perguntar-lhe, se gostaria de servir o Exercito brasileiro no
Haiti, Jacob respondera que sim, quando o general Pascoal quis saber seu nome,
ele respondeu sem titubear, Meu nome é
Silver Costa! mentiu. O cognome de Jacob tem um sentido infantil, nasceu de uma
fantasia ainda em sua adolescência, em Nova Bréscia. Na carroça puxada pela
égua lalá, seguia até a cidade, depois das compras folheava as revistas da
banca de jornal e via televisão dos restaurantes
na calçada. gostava de assistir o zorro, não entendia o sentido da palavra Silver, mas se empolgava ao ver o
mascarado pronunciá-la com altivez. O próprio Toussaint Louverture o caçoou
quando foi lhe apresentado, Aiiooooo! Silver! estavam agora, frente a frente, confabulando,
Vá devagar Silver, você não está no Brasil, quando a fumaça de nossos incêndios
te cobrirem com cinzas, tua pele branca será sempre uma pele branca com
camuflagem, a pele do Haiti, amigo, será sempre negra! o olhar cinza e
sarcófago de Tossaint, relembrou uma palavra que Jacob aprendera a conhecer em
Nova Bréscia: a independência. Os dois percorriam caminhos distintos, Jacob
estava ali porque fugia de algo que não conhecia, queria enterrar sua maldade
naquele país triste, voltar para o Brasil sem
o desprezível impulso, o desejo
de querer matar e saborear a carne que ele mais apreciava; a orelha humana. O caminho de Toussaint era
imperceptível à Jacob, que não via as semelhanças de condições sociais entre
Brasil e Haiti. Líder soberano de todos os grupos rebeldes da ilha, Toussaint
era admirado e protegido por um povo aflito que bebia em doses cavalares a
vontade de lutar ― Jacob não comentara com os companheiros de caserna, mas sabia
que os dias de ocupação estavam contados ―
para ser livre. O Haiti nunca mais teria privações, o maná, Jacob
encontrara por acaso. O coronel Pascoal liberou-o a fazer pesquisas com raízes
e plantas alimentares, embora não lhe depositasse uma folha de credibilidade,
via nesta atitude uma mania saudável, desde que não o importunasse, não haveria
nada de errado. Esta sua fixação de descobrir alimentos novos beneficiou um
povo que vivia num manto de silêncio, maledicência, maldição e fome. Numa
manhã, mergulharam no Mar do Caribe e sentira na boca um sabor semelhante ao feijão temperado com paio
e alho, voltou a mergulhar e trouxe nas mãos uma planta semelhante um ramalhete verde. Na cozinha, adicionou
seus temperos secretos, preparou uma sopa e serviu-a, a uma numerosa família de
Porto Príncipe. No dia seguinte fora sequestrado e levado a um barraco com piso
de terra batida, no centro de Cité Soleil; Toussaint Louverture queria
conhecê-lo. Causava-lhe ódio e fragilidade estar à porta dos Estados Unidos― o
país mais rico da história da humanidade ―, ver aos quatro anos de idade o
vizinho rico intervir no país com o devastador embargo econômico, fê-lo
desacreditar no resto mundo, Como acabar com nossa miséria? pensava Toussaint. Olhares cinza e lábios carnudos infantis,
nada diziam, o pequeno gaúcho sim, viera de longe, do país do futebol, foram
campeões do mundo, foram tri! na verdade, Jacob descobrira algo que para
Toussaint seria o fim das ocupações estrangeiras; acabar com a fome de sua adorável ilha. Como aliado, Jacob tivera todo apoio que pedira, solicitou liberdade territorial e noturna
para concluir suas pesquisas e fora atendido imediatamente. Toussaint pediu-lhe
que assistisse a uma reunião do vodu, na ocasião, tatuaram em seu braço o
símbolo de um crânio. Segundo a lei dos rebeldes, a cerimônia o tornara um
Haitiano. Nesta mesma noite, a venerada
planta que Jacob descobrira, fora chamada por: Sopa Verde.
Utinga Pereira
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