terça-feira, 13 de outubro de 2015

Trecho do livro " crimes e milagres na Festa da Carpição" Lançado pela editora Amazon.com em Outubro de 2015






Haiti 
Porto Príncipe –1973



As rajadas de fuzis e cantadas de pneus foram súbitas e  próximas, Jacob comprimiu-se com o susto. Agachado às escuras, viu uma perseguição policial haitiana passar à frente, com o impacto da surpresa não tivera tempo de engolir uma orelha negra presa entre seus dentes, sua boca ficara tão suja de sangue que um lenço masculino se encharcaria. Normalmente não agia assim, mas admitiu; a causa fora a perplexidade. Achou prudente fugir imediatamente. Desembestou na escuridão pelas vielas da  favela  de Cité Soleil,  iria  ter com Tossaint. O general Tiburcio Pascoal, comandante militar da missão de Paz das Nações Unidas, deu uma gargalhada vigorosa que ecoara por todo o corredor da pequena sala de sauna, Estou lhe dizendo, comentou animado, o desgraçado me fez comer um prato com o nome de rabo de tanajura com peixe assado! os oficiais sacudiram-se de rir, Agora tu imagina uma coisa, mais de uma hora de simulação de conflito, com soldados sendo atingidos por pedras e paus, tu ali com uma fome do caralho, e quando vai embora, teu carro fura o pneu em frente à um restaurante, tu  entra e, aparece um sujeitinho de cabeça  enorme te oferecendo peixe com bunda de formiga? Ah! Tenha dó! E foi ai que ele te pegou, concluiu o capitão Aguiar, com deboche disfarçado. Houve mais gargalhadas, Pois é, continuou o general Pascoal, erguendo-se e recompondo a toalha na cintura, Ele não pegou só a mim como todos vocês, ou querem de volta aquela caca que está nos contêineres? juntos, os oficiais discordaram com o dedo indicador. O primeiro contingente do Exército brasileiro no Haiti fora instalado a um quilometro de Pentionville ― único bairro rico do país ―, embaixadas, restaurantes com culinárias europeias, à sombra de uma base da ONU. O poder, seja  ele de  qualquer espécie, possui um comportamento motivado    pela ambição, de  modo  que para satisfazer sua ânsia, pode inclusive matricular suas lindas crianças loiras e ingênuas no centro de Pentionville; protegidas pelo simpático  e  incógnito  Exército  Brasileiro. Depois de seis meses no Haiti Jacob não conseguia exterminar sua melancolia. Não havia no mundo um ser humano que pudesse compreendê-lo; ele mesmo não saberia se explicar. Quando general Pascoal o conheceu em Santa Catarina, se  encantou com sua culinária. Cogitava levar um  soldado  cozinheiro do Brasil, Jacob fora um prato cheio à suas intenções, não se importou com  sua cabeça desproporcional ao corpo, afinal, seus vistosos olhos azuis compensavam sua anatomia desfigurada. Ao perguntar-lhe, se gostaria de servir o Exercito brasileiro no Haiti, Jacob respondera que sim, quando o general Pascoal quis saber seu nome, ele respondeu  sem titubear, Meu nome é Silver Costa! mentiu. O cognome de Jacob tem um sentido infantil, nasceu de uma fantasia ainda em sua adolescência, em Nova Bréscia. Na carroça puxada pela égua lalá, seguia até a cidade, depois das compras folheava as revistas da banca de jornal e via televisão dos restaurantes na calçada. gostava de assistir o zorro, não entendia o sentido da palavra Silver, mas se empolgava ao ver o mascarado pronunciá-la com altivez. O próprio Toussaint Louverture o caçoou quando foi lhe apresentado, Aiiooooo! Silver! estavam agora, frente a frente, confabulando, Vá devagar Silver, você não está no Brasil, quando a fumaça de nossos incêndios te cobrirem com cinzas, tua pele branca será sempre uma pele branca com camuflagem, a pele do Haiti, amigo, será sempre negra! o olhar cinza e sarcófago de Tossaint, relembrou uma palavra que Jacob aprendera a conhecer em Nova Bréscia: a independência. Os dois percorriam caminhos distintos, Jacob estava ali porque fugia de algo que não conhecia, queria enterrar sua maldade naquele país triste, voltar para o Brasil sem  o desprezível  impulso,  o  desejo de querer matar e saborear a carne que ele mais apreciava; a orelha humana. O caminho de Toussaint era imperceptível à Jacob, que não via as semelhanças de condições sociais entre Brasil e Haiti. Líder soberano de todos os grupos rebeldes da ilha, Toussaint era admirado e protegido por um povo aflito que bebia em doses cavalares a vontade de lutar ― Jacob não comentara com os companheiros de caserna, mas sabia que os dias de ocupação estavam contados ―  para ser livre. O Haiti nunca mais teria privações, o maná, Jacob encontrara por acaso. O coronel Pascoal liberou-o a fazer pesquisas com raízes e plantas alimentares, embora não lhe depositasse uma folha de credibilidade, via nesta atitude uma mania saudável, desde que não o importunasse, não haveria nada de errado. Esta sua fixação de descobrir alimentos novos beneficiou um povo que vivia num manto de silêncio, maledicência, maldição e fome. Numa manhã, mergulharam no Mar do Caribe e sentira na boca um  sabor semelhante ao feijão temperado com paio e alho, voltou a mergulhar e trouxe nas mãos uma planta semelhante  um ramalhete verde. Na cozinha, adicionou seus temperos secretos, preparou uma sopa e serviu-a, a uma numerosa família de Porto Príncipe. No dia seguinte fora sequestrado e levado a um barraco com piso de terra batida, no centro de Cité Soleil; Toussaint Louverture queria conhecê-lo. Causava-lhe ódio e fragilidade estar à porta dos Estados Unidos― o país mais rico da história da humanidade ―, ver aos quatro anos de idade o vizinho rico intervir no país com o devastador embargo econômico, fê-lo desacreditar no resto mundo, Como acabar com nossa miséria? pensava Toussaint.  Olhares cinza e lábios carnudos infantis, nada diziam, o pequeno gaúcho sim, viera de longe, do país do futebol, foram campeões do mundo, foram tri! na verdade, Jacob descobrira algo que para Toussaint  seria  o fim das ocupações estrangeiras; acabar  com a fome de  sua  adorável  ilha. Como  aliado, Jacob tivera todo apoio que pedira, solicitou liberdade territorial e noturna para concluir suas pesquisas e fora atendido imediatamente. Toussaint pediu-lhe que assistisse a uma reunião do vodu, na ocasião, tatuaram em seu braço o símbolo de um crânio. Segundo a lei dos rebeldes, a cerimônia o tornara um Haitiano. Nesta mesma noite, a venerada  planta que Jacob descobrira, fora chamada por: Sopa Verde.

                                                                                                                                       Utinga Pereira

 

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